09 junho 2018

Sr. Maví, o sapateiro

Hoje foi um dia de sentimentos distintos.
Fiz este desenho do Sr. Maví, o sapateiro, e sua oficina na Av. Paula Ferreira - Freguesia do Ó, São Paulo.
Durante a semana fui levar lá uma blusa que estava com o ziper emperrado. Ele consertou pra mim e não quis cobrar. Notei a oficina dele...uma bagunça! Mas que tema...Perguntei se eu podia ir 'qualquer dia' desenhar lá. Ele não sei se entendeu bem, mas concordou com a cabeça.
Pois...fui hoje mesmo. Cheguei, expliquei o que ia fazer e ele já foi bem solícito. Me ofereceu uma cadeira, mas eu disse que ia ficar em pé mesmo, para não se preocupar comigo.
Fiquei das 10:00 às 13:00hs, quando parei para almoçar na padaria ali perto. Depois voltei e fiquei mais 2 horas. Ao todo, 5 horas de desenho, meu novo recorde (acho).
Não fiquei cansado...acho que os exercícios para a lombar na academia estão ajudando rs.
Tomei café e guaraná oferecidos por ele...conversamos sobre tudo. De futebol à espiritualidade. Ele é evangélico. Chegou a parar para orar, pegando a bíblia que se encontra no balcão (no desenho, no suporte à esquerda). Não sei se ajoelhou ou sentou-se no chão, porque sumiu atrás do balcão por uns instantes.
Pernambucano de Caruaru, tem 3 filhos e é separado.
Disse que vai retornar para sua cidade natal para ficar com os filhos, que moram por lá. Está há 18 anos trabalhando neste local, mas ha muito tempo em São Paulo. Trabalha com calçados desde jovem.
Nos despedimos com a promessa que levarei uma cópia do desenho para ele "guardar de lembrança".

Sr. Maví em seus afazeres diários.

Enquanto ele mastigava um sanduíche, eu tirei essa foto, já indo embora.

Ensinando-me a apontar o lápis com o estilete

Foram momentos intensos, mas prazerosos. Mais tarde, fiquei sabendo que a gatinha que eu tive com minha ex-esposa faleceu. Viveu 14 aninhos e era um doce de ser.

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Last Saturday, I did this drawing of Mr. Maví, the shoemaker, and his small shop near home, in São Paulo, Brazil.
Last week, I went there to fix a jacket that had its zipper jammed. He fixed it for me and did not want to charge. I noticed his shop ...what a mess! But what a subject!  I asked him if I could go 'any day' and sketch his shop. I don’t know whether he understood or not, but he nodded along.
I went a couple of days later! As I arrived, I explained what I was going to do, showing some pages of my sketchbook. He promptly offered me a chair, but I told him that I was going to stand outside the shop and would try not to disturb him.
I stayed there from 10:00 a.m. to 13:00 p.m., when I stopped for lunch at a bakery nearby. Then I came back and stayed another 2 hours. Overall, 5 hours of drawing, my new record (I think).
He offered me coffee and sodas... we talked about everything. From soccer to spirituality. He suddenly stopped to pray, taking the bible that was on the counter (in the drawing, in the support on the left), disappearing behind the counter for a few moments.
He is from north of Brazil where his sons live. He’s divorced. He said he will return to his hometown to stay with them.
He has been working in this place for 18 years but living in São Paulo for very long time.  He has been working with shoes since he was young.
We said goodbye with the promise that I will give him a copy of the drawing.



03 junho 2018

Mercado de Pirituba


Aproveitei o feriado de Corpus Christie e fui visitar o Mercado Municipal de Pirituba, na Zona Norte de São Paulo. Foram 3km de caminhada para chegar desde aqui, o Largo da Matriz na Freguesia.
Fiquei impressionado com a beleza do edifício! Trata-se de uma enorme cobertura de concreto sustentada apenas em um núcleo central, com uma grande coluna de concreto que funciona tb como caixa d´água. Tem 70 metros de diametro. É incrivel a delicadeza da estrutura - deve ter meros 10cm na extremidade, talvez nem isso!
O projeto é do arquiteto Abelardo Riedy de Souza, o mesmo que projetou o ed. Nações Unidas na esquina da Av. Paulista com a Brigadeiro. O projeto estrutural foi assinado pelo engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz (que entre tantas obras calculou o MASP, a cúpula da catedral da Sé e o planetário do Ibirapuera).
Cheguei às 10:00 e logo recebi uma visita...fiquei conversando com o Sr. Fernando, morador do bairro, angolano no Brasil há 50 anos, filho de portugueses. Batemos um bom papo. Ao se despedir, dizendo que já estava me "atrapalhando", deu-me a mão e desejou-me um bom trabalho. Um pouco adiante parou, e perguntou meu nome. Completou dizendo que seus pais chamavam ... (não lembro o nome do pai) e Laura. "Lindo esse nome né?" "olha, fico até arrepiado ao lembrar dos meus pais...". Virou e foi embora com a cachorrinha. O arrepio do braço dele passou para o meu.
Ás 12:00 parei e entrei no mercado para tomar um pingado e comer um enrolado de calabresa. Fui ao banheiro também.
Voltei e fiquei desenhando até quase às 14:00.
Mais algumas pessoas pararam e conversaram comigo, elogiando o prédio, lamentando as condições de manutenção.
Um outro senhor me informou que o janelão foi adicionado a posteriori. "Era pra ser aberto!"...mas fecharam, pois obviamente chovia dentro.
Uma outra moça ainda disse "sou apaixonada por esse prédio...parece uma flor".
Fui retornando pra casa...infelizmente fiquei com uma forte dor de cabeça. Ainda comi uma coxinha e uma esfiha no caminho rs. Dormi para passar a dor e trabalhei mais alguns minutos no desenho.

Ao postar este desenho no Facebook, fiquei muito contente com o feedback que as pessoas me deram. Alguns comentaram que moram ou moravam ali perto, e o prédio sempre foi uma referência para eles:

"Vc me fez relembrar tantas histórias! Morei bem pertinho dai qdo era criança. Esse prédio fez parte dela! Sempre o achei muito diferentão e gostava de passar pelos arredores, no escadão, parquinho... Ele ficava sempre no meio do caminho pra algum lugar. Meio do caminho da casa da minha vó Cida, pro outro lafo da casa da tia Bela, pra outro pra igreja e escola, loterica do meu avô... Pra cada lado tinha uma história..." (Arq.Daniela Hladkyi)